domingo, 14 de dezembro de 2008

Filme com molho Kubrick.



Era uma tarde macilenta e flácida, fazia frio e todos da casa haviam dormido. Todos de ressaca por conta do Ano Novo, enquanto eu, como por tradição, acordada desde as oito e vivinha em cores. Criança sem ter o que fazer, mas disposta à primeira traquinagem. Revirei a velha estante da sala até me deparar com aquela fita de homem estranho na capa. Nela estava escrito: Laranja Mecânica. Deslizei até a sala de TV e então foi uma transformação. Ouvi barulho de fogos e depois longo silêncio. “Esqueça o desenho do Mickey, a nona sinfonia não mais o pertence.” Talvez não haja celebridade que me tenha afetado tanto quanto Stanley Kubrick. E hoje de manhã, finalmente, depois de tantos encontros e desencontros, eu assisti, para remissão da minha alma, “O Iluminado” e, em seguida, “Nascido para matar”. Como não fazer referência às duas gêmeas de vestidinho azul e ao machado desferido contra a porta onde se lê, ao contrário, assassinato? E os sons agudos nas horas de maior tensão, e a câmera teimosa que não muda de ângulo de jeito algum? O filme inteiro é um compêndio de cenas memoráveis. “Nascido para matar” também não fica atrás, pois, apesar de ser um filme de guerra, sua qualidade exime qualquer cena de ação. E se lá estão, há de ser mais por capricho que por necessidade. Um jovem americano que ambiciona ser correspondente de guerra carrega na mão direita um fuzil e, no peito esquerdo, um bottom hippie. Era ele o homem contraditório de Jung, mas a guerra o fez mudar de idéia. A cada dia mais me convenço de que só engulo filme se for com muito molho Kubrick.


:* A cena mais emblemática foi a da torrente de sangue escapando pelo elevador e arrastando os móveis no salão.


:) Jack Nicholson é um gigante da atuação.

:( Fiquei triste pelo cozinheiro. Foi uma morte simples e rápida, mas nem por isso sem significado. A pouca emoção coube muito bem à insanidade do Jack e a música fechou o momento. Se “Os Infiltrados” e “Queime depois de ler” estavam tentando imitar esse devir genial, coitados.

:D Adorei a trilha sonora de Nascido para matar. Destaque também para o primeiro momento do filme, o árduo treinamento no quartel.

:) “Animal” foi o soldado com o qual mais me simpatizei, inclusive por suas entrevistas de guerras.

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