quarta-feira, 26 de agosto de 2009



Como é difícil acostumar-me a essa nova antiga rotina, esse labor de faquir desacreditado e sem esperança. Ai de mim, feliz conta magra de consumo elétrico.
Terei de redescobrir as locadouras, resgatar velhas contas, rever um ou outro débito, quem sabe apelar para o paleativo. Qual? Seria o malfadado emplasto hipocondríaco? Não, eu desço do trapézio por esse retorno à rotina supra broadcast.

Policiais de 95 ou comédias dos anos 80? Entre a sessão da madrugada de hoje e a do dia seguinte, onde poderei me ancorar? Cansada dos repetidos, cansada dos anos 90 a se enfestarem de bolor e pó. Eu quero o novo, a propaganda inédita, o título sem tradução, a desconfiança e o conforto dos 112 canais.

Será que me corrijo? Que fazer? Eu me recuso.

Encontrarei alternativas, um fio perdido de esperança deixado ao léu por alguém. Quem sabe por alguém que agora se farte de 112 canais,para o qual a esperança é um entulho mental desnecessário. Saco essa ideia fixa do bolso: ei de me render, finalmente, aos vídeos dilacerados da interner? Não, eu não me entrego ao desespero, esse ser que nos obriga a assistir "Esqueceram de mim" a cada Natal. Prossigo, pois tenho o fio entre os dedos.

_ Algo de bom dever haver, algo que seja menos ruim. E eu vou mudando de canal, em eterno ciclo.

domingo, 26 de abril de 2009

Um par de óculos embaçados.



Eu que me dizia fã de Merlin Monroe, mas nunca havia assistido um só filme dela, ontem confirmei essa minha simpatia gratuita. "Quanto mais quente melhor" ou "Some Like It Hot", foi uma verdadeira entrega para mim: divertido, envolvente, surpreendente. A história de dois músicos picaretas que acabam por participar de uma banda só de mulheres, numa viagem louca para fugir da máfia siciliana e ainda ganhar uns trocados, consegue ser original, mesmo nos tempos de hoje. A dupla Josephine (Joe) e Daphne (Jerry) é muito engraçada, especialmente quando acompanhados pela ingênua e sensual Sugar Kane, perfeitamente encarnada nas curvas de Merlin Monroe. Um filme para deixar os óculos embaçados, a minha comédia das tardes de sábado.


:@ A cena mais tudo é o jantar no iate. Enquanto Joe, fingindo uma frigidez insólita, põe-se à prova sob a voluptuosa Sugar, o amigo Jerry se vê às voltas com um milionário cheio das boas intenções.

:) Cada beijo da Merlin é um sufoco! Sinceramente, uma ótima atuação de Tony Curtis, que fingiu o quanto pode um desisteresse mórbido..., mas claro que os óculos do rapaz embaçaram.

:) A festinha na cabine também é muito divertida. Foi quando eu percebi qual seria a tônica do filme.

:* Quanto mais quente melhor também entra na lista do cinema GLS.

:/ O filme foi rodado em 1959 e dirigido por Billy Wilder, o mesmo de "Se meu apartamento falasse". Ai, meu Deus, por que eu anda não vi esse filme?


nota: 9 + 1= 10, porque preto e branco é mais charmoso e comigo recebe ponto extra.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Um estranho chamado Bob Dylan.


Não é de hoje que me surpreendo com esse meu famoso desconhecido. Deus, quanto mais serei forçada a vestir o capuz da ignorância? Na verdade, nunca precisei usa-lo, mas antes me submeter à catalepsia musical a sair por aí impressionando a todos com um festival de contradições, bem comum hoje em dia. Enfim, não me propus a resenhar discos nem tão pouco os gurus da música. Reconheço que seja isso tarefa para alguns poucos que se redimem por quase nada saberem. A santa ignorância protetora dos fracos e, não por contradição, mantenedora dos fortes de garganta e ecologicamente descartáveis. Detenho-me, portanto, por balançar meu copo meio vazio na esperança de que um dia possa vir a imita-lo transbordar. Antes um copo vazio, porque dele se bebeu, a um copo cheio posto em pedestal por seu suposto contato com o cosmos superior. Senhor, dai de beber aos que têm sede e perpetuai, desde já, a eterna estranheza em torno de Bob Dylan. Pois, sei que deveria ter assistido antes a “No Direction Home – Bob Dylan” do Scorsese, porque também havia me prometido isso, mas fazer o quê se, na hora do almoço, e reconheço essa chaga própria aos sedentários, passa na TV “I’m Not There” de Todd Haynes... Um filme que, decididamente, ou se assiste ou se come, pois as duas ações conjuntas não compensam o esforço. Eu não me lembro de haver assistido antes a um filme mais recortado, talvez, “The Butterfly Effect” de Eric Bress e J. Mackye Gruber, mas os dois tiveram motivos diferentes e em “I’m Not There” o recurso ganha charme pelos inúmeros detalhes dados, até mesmo, pela mudança de atores.

:) Marcus Carl Franklin foi uma grata surpresa. Espero que eu continue encontrando-o nessa forma in natura com que trabalha.

:* Claro que eu não poderia deixar de frisar aqui a encarnação de Bob Dylan em Cate Blanchett, algo quase demoníaco.

:) Parabéns também aos demais atores que também cumpriram bem o desafio de desenvolver as fases ou reinvenções desse famoso cheio de rótulos, mas que fez questão de esnobar a todos: Richard Gere, Christian Bale, Benz Antoine, Heath Ledger e Bem Whishaw.

:@ Adorei as cenas olho no olho, com os primorosos conselhos de vida e lógico que também as músicas.

domingo, 8 de fevereiro de 2009

Caça aos extintos vampiros insensíveis.




Ontem, realizei um sonho que alimentava há anos: assisti ao "Nosferatu, Eine Symphonie des Grauens" (1922) do Murnau e, em seguida, ao "Nosferatu: Phantom der Nacht" (1979), no meu entender, brilhante, de Werner Herzog. Ah sim, o terror! Meu primeiro filme de terror foi "Friday the 13th" (1980), e lembro que fiquei espantada, até mesmo de dia, por conta do Jason Voorhees. Quase um caso de Paraskavedekatriaphobia... Mas, ao contrário da minha irmã, que jurou de pés juntos não sair da ilha dos clássicos Disney, eu resolvi que só havia uma forma de vencer esse medo: arranjando outro maior. E quando dei por mim já havia me aficionado ao género, fazer o quê?

Pois bem, esses dois Nosferatu baseiam-se no batido romance "Drácula" de Bram Stoker, da mesma forma que "Bram Stoker's Dracula" (1992) de Francis Ford Coppola, mas com uma diferença gritante: os dois primeiros Nosferatu são terrivelmente insensíveis se comparados com o Drácula de Coppola. E por isso mesmo que eu estava ansiosa por vê-los, pois não suporto essas criaturas nefastas capazes de se apaixonar, quanto mais vampiros, personagens extremamente narcisistas. Foi com grande alegria, portanto, que me deparei com o animalesco Orlok e com o ambicioso Drácula (de Herzog), pois sabia eu não encontrar neles o melodrama típico dos seres mortais e benígnos ou desses vampiros de seriados de TV.

PS: Tudo bem, Gary Oldman estava um Drácula bastante sedutor, enquanto os outros pareciam mais mortos que vivos. Mas também, não precisava ser tão passional. Eu reclamo, mas gostei do filme.



:* Nosferatu de 1922 dá medo especialmente por ser antigo. A impressão que eu tive foi de estar assistindo a um documentário com algumas cenas reais. Adorei também a mudança que o Murnau fez na cor das cenas de acordo com os seus horários. O azul turbulento das cenas noturnas são asfixiantes!

:* Quando Jonathan Harker vai ao encontro do castelo do conde Drácula, a música de Wagner, que eu, por sinal, não atentei qual, surge em um crescendo aos poucos à medida que o sol vai se pondo... é brilhante! O medo vem e não há quem o empate. No castelo então, ui!
:o Filme mudo, pra mim, já é angustiante, porque as pessoas gritam, mas o som não sai.

:) Terrível aquelas múmias de crianças de rostos torturados que aparecem no começo do filme Nosferatu, de Herzog. Detalhe também para o cuidado do diretor em homenagear, sem, no entanto, copiar, o clássico de Murnau.
:) Muito inteligente o plano diabólico de Drácula para dominar o mundo: disseminar a Peste Negra, quase um dividendo seu. Para produzir o filme, por sinal, foi preciso pintar de branco milhares de ratos que aparecem invadindo casas e ruas, e promovendo a morte e a loucura.

:@ A Lucy foi, das três musas, a mais inteligente e ativa. Não se portando como uma vítima amedrontada ou mesmo cega pela paixão, Lucy, pelo contrário, foi a única que desconfiou e descobriu os planos do vampíro, frustrando-os, inclusive, graças a sua perspicácia. Adorei o filme também por esse crédito ao cérebro feminino.

:( "Dracula 2000" do Patrick Lussier só se for comendo algo muito bom, tipo lasanha, senão não dá pra engolir!






sábado, 20 de dezembro de 2008

Malditas vacas do inferno.


Quarta-feira passada, tentei baixar alguns filmes pela internet, mas sem sucesso: ao invés de paciência sobrou-me indignação. E como não haveria de ser? Horas defronte ao computador, horas de pesquisa e com o quê me deparo? Filmes como “Juventude Transviada” e “A Marca da Maldade” retalhados em quatro, dez partes, etiquetados arbitrariamente junto à valeta da mesmice cultural. Abomino tal ordinarismo. Prefiro sujeitar-me à tolice_ afinal, deixo de desfrutar algo de graça_ a ter de participar desse desrespeito à sétima arte. Enfim, me processe se acaso me fiz bem entender.

Desenganada mais uma vez, portanto, quanto às web comodidades, e, principalmente, sem mais ânimo de ir até uma locadora, rendi-me ao suposto tédio da programação televisa ...ao menos durante as tardes, e foi assim, desprevenida, que assisti “Atração Fatal”. Taxei-o a princípio como “mais um bobo clichê”, um misto de paixão à queima roupa, traição impensada e amante vingativa. Mas não havia calculado, ou melhor, não havia me dado conta que aquela fogueira mais era parte de um incêndio do que um mero aquecedor. Alex Forrest estapeou-me! Antes não havia concebido imagem mais transparente e limpa da insânia: Alex foi para mim tão simples e espantosa quanto uma cebola de espelhos. Passado o choque... mais duas loucas: “Thelma e Louise”. Ambas largam a opressão de suas vidas maçantes por aventura e essa transgressão social não passaria impune... Resultado? A dupla de bandidas mais célebre do cinema por seu humor e, principalmente por sua inextirpável ânsia de liberdade. Malditas vacas do inferno, Eles dizem. Elas dizem: “Voem, nós podemos tudo!”.



:* A melhor cena de "Atração Fatal" foi a luta desesperadora entre Dan Gallagher e Alex Forrest no apartamento dela.

:) Glenn Close está irreconhecível nesse filme, ótima atuação.

:) Quem consegue permanecer impacível aos célebres "peça desculpas" de Louise? E a trilha sonora? Um ótimo trabalho de Ridley Scott.

:/ Fico triste vendo aquele cadilac saltar contra ao vento, mas isso mais pelo filme que termina.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Meu primeiro Hitchcock


Protelei esse momento até uma noite dessas de domingo. Detesto quando sei da sinopse de um filme ou quando já espero determinadas atitudes de um diretor e é por isso que eu sempre evito saber deles mais que seus nomes. As obras perdem um pouco de seu quando submetidas ao crivo de impressões daquela primeira que se viu há tempos. É assim com os livros e também com os filmes. Então nada mais natural que eu escolhesse aquela obra prima, aquela inimitável que me faria sempre os bons olhos dedicar à fina flor xadrez que o suspense é. Mas qual das obras primas? Nutri tamanha admiração por esse Hitchcock que receei começar por um de seus filmes de que eu menos gostasse e assim, sem maiores rodeios, acabar desiludindo-me dele. Haveria de ser um especial, o mais bizarro, o que pudesse tomar, ilusa e à primeira vista, como um original sem reprimenda. E o eleito da noite de domingo foi “Os Pássaros”, um horripilante quebra-cabeças sem a irreal trilha sonora ou o consolador “The End”. O pesadelo de corvos, gaivotas e pardais surge e ataca a todos de repente, sem qualquer motivo plausível além da suspeita de que a jovem e rica Suzanne Pleshette trouxera o mal para aquela pacata cidade costeira. Os pássaros cobrem as pessoas como abelhas, arrancam telhados, quebram vidros e portas... uma natureza assustadora de tão absurda. O bom foi que, quando apareceu a legenda da Universal Pictures, não quis acreditar que o filme havia acabado. O “The End” seria a confirmação de que tudo acabara bem..., pobre Suzanne!



:* O ataque dos corvos à escola foi a melhor cena do filme. De um por um pousando em cima dos brinquedos, à espreita, mais pareceu uma sombra maligna que se deitava aos poucos.

:) O diálogo entre Mitch e Suzanne é inteligente e divertido. Detalhe para o embaraço dela na loja de animais. Acho que é mal de todo Mitch ser perturbador e sarcástico.

:) Não sabia que os periquitos também são chamados de pássaros do amor.

:) Quase bolei de rir por conta do nome da cidadezinha: Bodega Bay.

Tardezinha de amor.


Ontem decidi que assistiria a alguns filmes pela TV e, como não podia ser diferente, os tomei quase todos lá pelos vinte minutos corridos. Sorte minha que boa parte desses enredos começa morno e só do meio para o fim é que, de fato, as peças do jogo amoroso põem-se a mover. Na verdade, isso de TV foi mais por pura cisma de baixar filmes da Internet. Conheço muitas pessoas que o fazem e também sei de vários endereços de sites disponíveis... quem sabe um dia eu não me renda à web comodidade. Contudo, não posso dizer que a tarde de ontem foi ruim, antes mágica. Como se posta em asas de fada, a lembrança daquela tardezinha de amor hoje resvala em meus cabelos. “Cinderela em Paris” e “Palavras ao vento”, dois clássicos do tempo em que Hollywood transformava simples em sublime. Nada de histórias mirabolantes, nada de cenas apelativas ou de diálogos onomatopaicos: tudo era simplesmente tão bom quanto um romance bobo que se lê e que nos dá ciúmes de indicar. Ah, Fred Astaire dançando e cantando com Audrey Hepburn, juntos naquela balsa sobre o lago, rodeados de flores e de cisnes e coelhos. Um romantismo disperso naquele tempo em que os homens dançavam e as mulheres tinham rosto de boneca. E como não ficar encantada com Mitch Wayne, o extinto cavalheiro de humor sarcástico e de sorriso extasiante? Duas tolices necessárias neste tempo de culto ao supérfluo.

:/ Ainda assisto “Um Amor na Tarde” qualquer dia desses. Como que imitando o passado, o filme passou justo na mesma hora em que eu assistia “Cinderela em Paris”.

Ps: Será que o Bruce Wayne é parente do Mitch Wayne?