sábado, 20 de dezembro de 2008

Malditas vacas do inferno.


Quarta-feira passada, tentei baixar alguns filmes pela internet, mas sem sucesso: ao invés de paciência sobrou-me indignação. E como não haveria de ser? Horas defronte ao computador, horas de pesquisa e com o quê me deparo? Filmes como “Juventude Transviada” e “A Marca da Maldade” retalhados em quatro, dez partes, etiquetados arbitrariamente junto à valeta da mesmice cultural. Abomino tal ordinarismo. Prefiro sujeitar-me à tolice_ afinal, deixo de desfrutar algo de graça_ a ter de participar desse desrespeito à sétima arte. Enfim, me processe se acaso me fiz bem entender.

Desenganada mais uma vez, portanto, quanto às web comodidades, e, principalmente, sem mais ânimo de ir até uma locadora, rendi-me ao suposto tédio da programação televisa ...ao menos durante as tardes, e foi assim, desprevenida, que assisti “Atração Fatal”. Taxei-o a princípio como “mais um bobo clichê”, um misto de paixão à queima roupa, traição impensada e amante vingativa. Mas não havia calculado, ou melhor, não havia me dado conta que aquela fogueira mais era parte de um incêndio do que um mero aquecedor. Alex Forrest estapeou-me! Antes não havia concebido imagem mais transparente e limpa da insânia: Alex foi para mim tão simples e espantosa quanto uma cebola de espelhos. Passado o choque... mais duas loucas: “Thelma e Louise”. Ambas largam a opressão de suas vidas maçantes por aventura e essa transgressão social não passaria impune... Resultado? A dupla de bandidas mais célebre do cinema por seu humor e, principalmente por sua inextirpável ânsia de liberdade. Malditas vacas do inferno, Eles dizem. Elas dizem: “Voem, nós podemos tudo!”.



:* A melhor cena de "Atração Fatal" foi a luta desesperadora entre Dan Gallagher e Alex Forrest no apartamento dela.

:) Glenn Close está irreconhecível nesse filme, ótima atuação.

:) Quem consegue permanecer impacível aos célebres "peça desculpas" de Louise? E a trilha sonora? Um ótimo trabalho de Ridley Scott.

:/ Fico triste vendo aquele cadilac saltar contra ao vento, mas isso mais pelo filme que termina.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Meu primeiro Hitchcock


Protelei esse momento até uma noite dessas de domingo. Detesto quando sei da sinopse de um filme ou quando já espero determinadas atitudes de um diretor e é por isso que eu sempre evito saber deles mais que seus nomes. As obras perdem um pouco de seu quando submetidas ao crivo de impressões daquela primeira que se viu há tempos. É assim com os livros e também com os filmes. Então nada mais natural que eu escolhesse aquela obra prima, aquela inimitável que me faria sempre os bons olhos dedicar à fina flor xadrez que o suspense é. Mas qual das obras primas? Nutri tamanha admiração por esse Hitchcock que receei começar por um de seus filmes de que eu menos gostasse e assim, sem maiores rodeios, acabar desiludindo-me dele. Haveria de ser um especial, o mais bizarro, o que pudesse tomar, ilusa e à primeira vista, como um original sem reprimenda. E o eleito da noite de domingo foi “Os Pássaros”, um horripilante quebra-cabeças sem a irreal trilha sonora ou o consolador “The End”. O pesadelo de corvos, gaivotas e pardais surge e ataca a todos de repente, sem qualquer motivo plausível além da suspeita de que a jovem e rica Suzanne Pleshette trouxera o mal para aquela pacata cidade costeira. Os pássaros cobrem as pessoas como abelhas, arrancam telhados, quebram vidros e portas... uma natureza assustadora de tão absurda. O bom foi que, quando apareceu a legenda da Universal Pictures, não quis acreditar que o filme havia acabado. O “The End” seria a confirmação de que tudo acabara bem..., pobre Suzanne!



:* O ataque dos corvos à escola foi a melhor cena do filme. De um por um pousando em cima dos brinquedos, à espreita, mais pareceu uma sombra maligna que se deitava aos poucos.

:) O diálogo entre Mitch e Suzanne é inteligente e divertido. Detalhe para o embaraço dela na loja de animais. Acho que é mal de todo Mitch ser perturbador e sarcástico.

:) Não sabia que os periquitos também são chamados de pássaros do amor.

:) Quase bolei de rir por conta do nome da cidadezinha: Bodega Bay.

Tardezinha de amor.


Ontem decidi que assistiria a alguns filmes pela TV e, como não podia ser diferente, os tomei quase todos lá pelos vinte minutos corridos. Sorte minha que boa parte desses enredos começa morno e só do meio para o fim é que, de fato, as peças do jogo amoroso põem-se a mover. Na verdade, isso de TV foi mais por pura cisma de baixar filmes da Internet. Conheço muitas pessoas que o fazem e também sei de vários endereços de sites disponíveis... quem sabe um dia eu não me renda à web comodidade. Contudo, não posso dizer que a tarde de ontem foi ruim, antes mágica. Como se posta em asas de fada, a lembrança daquela tardezinha de amor hoje resvala em meus cabelos. “Cinderela em Paris” e “Palavras ao vento”, dois clássicos do tempo em que Hollywood transformava simples em sublime. Nada de histórias mirabolantes, nada de cenas apelativas ou de diálogos onomatopaicos: tudo era simplesmente tão bom quanto um romance bobo que se lê e que nos dá ciúmes de indicar. Ah, Fred Astaire dançando e cantando com Audrey Hepburn, juntos naquela balsa sobre o lago, rodeados de flores e de cisnes e coelhos. Um romantismo disperso naquele tempo em que os homens dançavam e as mulheres tinham rosto de boneca. E como não ficar encantada com Mitch Wayne, o extinto cavalheiro de humor sarcástico e de sorriso extasiante? Duas tolices necessárias neste tempo de culto ao supérfluo.

:/ Ainda assisto “Um Amor na Tarde” qualquer dia desses. Como que imitando o passado, o filme passou justo na mesma hora em que eu assistia “Cinderela em Paris”.

Ps: Será que o Bruce Wayne é parente do Mitch Wayne?

domingo, 14 de dezembro de 2008

Filme com molho Kubrick.



Era uma tarde macilenta e flácida, fazia frio e todos da casa haviam dormido. Todos de ressaca por conta do Ano Novo, enquanto eu, como por tradição, acordada desde as oito e vivinha em cores. Criança sem ter o que fazer, mas disposta à primeira traquinagem. Revirei a velha estante da sala até me deparar com aquela fita de homem estranho na capa. Nela estava escrito: Laranja Mecânica. Deslizei até a sala de TV e então foi uma transformação. Ouvi barulho de fogos e depois longo silêncio. “Esqueça o desenho do Mickey, a nona sinfonia não mais o pertence.” Talvez não haja celebridade que me tenha afetado tanto quanto Stanley Kubrick. E hoje de manhã, finalmente, depois de tantos encontros e desencontros, eu assisti, para remissão da minha alma, “O Iluminado” e, em seguida, “Nascido para matar”. Como não fazer referência às duas gêmeas de vestidinho azul e ao machado desferido contra a porta onde se lê, ao contrário, assassinato? E os sons agudos nas horas de maior tensão, e a câmera teimosa que não muda de ângulo de jeito algum? O filme inteiro é um compêndio de cenas memoráveis. “Nascido para matar” também não fica atrás, pois, apesar de ser um filme de guerra, sua qualidade exime qualquer cena de ação. E se lá estão, há de ser mais por capricho que por necessidade. Um jovem americano que ambiciona ser correspondente de guerra carrega na mão direita um fuzil e, no peito esquerdo, um bottom hippie. Era ele o homem contraditório de Jung, mas a guerra o fez mudar de idéia. A cada dia mais me convenço de que só engulo filme se for com muito molho Kubrick.


:* A cena mais emblemática foi a da torrente de sangue escapando pelo elevador e arrastando os móveis no salão.


:) Jack Nicholson é um gigante da atuação.

:( Fiquei triste pelo cozinheiro. Foi uma morte simples e rápida, mas nem por isso sem significado. A pouca emoção coube muito bem à insanidade do Jack e a música fechou o momento. Se “Os Infiltrados” e “Queime depois de ler” estavam tentando imitar esse devir genial, coitados.

:D Adorei a trilha sonora de Nascido para matar. Destaque também para o primeiro momento do filme, o árduo treinamento no quartel.

:) “Animal” foi o soldado com o qual mais me simpatizei, inclusive por suas entrevistas de guerras.

Na cama com Almodóvar.




Meu programa de sexta-feira à noite: sair da promessa e ir pra cama com Almodóvar. Isso porque eu sempre soube que ele iria me chocar, por parafusos sob a minha pele, me obrigar a virar do avesso. Violência e paixão em doses múltiplas, de uma forma cruenta, vermelha, mas envolta em plástico filme. Há na sua obra uma delicadeza invisível que afasta a idéia do vulgar e a do torpe. O politicamente incorreto vem e nos dá um oi: descarado, mas, de certa forma, polido, e em troca, sem que percebamos, sorrimos para o desgarrado e para o vil como vizinho nosso que de fato o é. Antes de dormir, assisti “Matador” e “Má educação” e talvez eu tenha me aventurado demais, eu que nunca aspirei absinto ou ópio. Em “Matador” vi alguma coisa de Kubrick: Angel pode bem ser um iluminado com problemas de audição. Também acredito ser o enredo bem conveniente, pois, em tempos de escassos verdugos quem terá melhor habilidade para o assassínio que um toureiro? Deus, como odeio touradas! Gostei bastante também da costura bem feita em “Má educação”, apesar das agulhadas na Igreja Católica e da rasoura que foi Enrique o filme todo. Após alguns “Deus me livres” e “Oh, minha nossas” dormi satisfeitíssima.


:* A primeira cena de “Matador” é perturbadora, uma esfinge impacientada pela fome.

:) Detalhe para a última carta de Ignácio assinada pela Morte.

Queime depois de ver



Nisso é que dá mudar os planos na fila do cinema. Estava eu já com o dinheiro na mão, olhando espantada para o rapaz da bilheteria, quando disse sem pensar: "Amigos, amigos, mulheres a parte". Duas meias, por favor. Minha irmã deu um pulo de satisfação, afinal, por que assistir a um filme de animação quando se pode optar por uma comédia romântica? Tenho pavor a comédias românticas, sinceramente, eu queria ter visto "Madagascar 2". Não demorou muito, porém, até que por minha vez desse o pulo do gato arrependido: o filme já começa abrupto feito uma torta na cara. A linguagem chula polui os diálogos que deveriam ser leves. Wasabi no olho! Depois, recentemente, foi a vez de "Queime depois de ler". Eu dizia pra mim mesma, desta vez eu assisto aqueles pingüins mafiosos. Mas aí o meu amigo_ era o dia dele_ veio com uma história de que estava deprimido e queria "desopilar". Resultado: troquei uma comédia garantida por um... comercial de duas horas. Não há costura de enredo. O filme começa a fazer algum sentido no final, quando os personagens morrem ou somem de forma ridícula: cenas fortes, mas sem emoção. Esse foi o meio para que os vários núcleos do filme se encontrassem. E eu continuo sem saber o que foi pior: juntar tantos atores competentes para um filme comercial ou a morte de Brad Pitt e a de Brian O’Neill - o que me fez lembrar de Leonardo Di Caprio em "Os Infiltrados".
Moral: Quando se vai assistir Madagascar 2, não mude de idéia, assista-o.


:) Devo dar meus parabéns, apesar de tudo, à atuação de Alec Baldwin, que está em ótima fase.

:/ Bastava um close na cena de morte em "Os Infiltrados".

:( Detalhe para a repetição das falas de John Malkovich e para a apatia de Tilda Swinton.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

Além do bem e do mal.




Tudo bem, me processe. O livro não tem muito haver com o novo filme do Batman, mas não pude resistir ao título. Que, aliás, Nietzsche me perdoe onde quer que ele esteja. Os filósofos, mais necessariamente, os metafísicos, deveriam se por nesse patamar, pondo em cheque a moralidade, a existência dos opostos para então ir além do questionamento do valor da busca pela verdade e, quem sabe, chegar à própria. É, eu estou lendo o livro desde o início do ano e, se Deus quiser, e que Nietzsche me perdoe de novo por essa menção, eu termino de lê-lo finalmente. Mas enquanto esse dia não chega, posso abusar da ignorância que ainda me cabe e utilizar a obra para esse fim metafórico. No filme, Batman não é um herói..., ao menos não como Superman, Spiderman e outros. Bruce Wayne não é um perdedor e Batman não é um bonzinho politicamente correto. Ele não pensa duas vezes antes de quebrar as pernas de um homem, de controlar todos os celulares da cidade ou de torcer o pescoço de um ou dois cães. Mesmo não matando o Coringa, que representa o demônio, jogou Harvey Dent de cima de um prédio, o anjo inocente. Protegido por sua máscara, Batman, na verdade, pode tomar qualquer decisão, fazer o que bem entender. Não é vilão, mas também não é herói. Batman está além do bem e do mal.

Detesto desgastar a beleza que é o verbo amar, empregando-o em toda e qualquer frase. Não é justo com o que na prática acontece. Contudo, desta vez seria injustiça maior se eu negasse isso: Batman está perfeito em "Cavaleiro das Trevas", amei!


Ps: Na minha opinião, Harvey morreu, mas não o Duas-Caras. A moeda caiu com a face branca virada para cima. Ao menos, eu posso ter a esperança de que meu segundo maluco favorito continue na trama.

Ps2: Não vou dizer o que já disseram sobre o Coringa. Irei adiante. Em um próximo filme, aposto em Phillip Seymour Hoffiman como o novo maluco de Gotham City. Basta perder uns quilos, deixar o cabelo crescer e treinar uma boa gargalhada.

Ps3: Detalhe para as cenas de perseguição de Coringa atrás de Harvey e, lógico, para o interrogatório memorável do Coringa.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Coincidência II



Dessa vez, preferi uma tarde mais light: Rei Arthur e Elizabeth, a Era de Ouro. Dois filmes que eu só olhava assim meio torto nas prateleiras, mas que eu sabia que um dia ia acabar alugando. Isso por duas razões: quem quer ver filme pela metade assiste pela TV, e eu sou mega admiradora do Arth e da Beth. Mas, vamos combinar, por cem gramas de wasabi, que marmota! Assim: a luta entre o general viking e o rei Arthur é tudo de bom, mas o resto não chega nem perto daquelas adaptações da Sessão da Tarde. Que horror a Guinevere versão celta aborígine e ainda com a cara da Keira Knightley. O outro filme é caça níquel. Tiveram a audácia de mudar a história da rainha que já naquela época, morram historiadores, desfrutava dos milagres da cirurgia plástica. Tudo bem que a Cate Blanchett continuasse com aquela carinha dela, mas também transformaram a rainha numa perturbada passional, quando ela se tornou célebre justo pelo contrário.

A coincidência da vez foi assustadora: dobradinha de Clive Owen e Geoffrey Rush. Detalhe para a boa atuação do Geoffrey como Sir Francis Walsingham e também como um general viking, quase um Angus MacLachlan!

Coincidência.


Eu não sei se por sexto sentido ou se por alguma magia oculta..., quase sempre alugo dois filmes com o mesmo ator. Não sou do tipo que fica horas lendo sinopses na locadora e talvez seja essa a fonte do problema. Levo pra casa uma caixinha de surpresas que pode ser a maior caixa de Pandora..., mas também, se for pra assistir apenas filmes aos quais já esteja predisposta, quando vou me permitir ver algo diferente? Quais as chances de um choque, de uma epifania ou de uma simples catarse? Baixas, eu acho. Então, na quarta passada, aluguei Capote e Syriana, e para o meu espanto_ chato quando a rotinha desbota a graça da coisa_ Cris Cooper atuou em todos dois. No primeiro, como um agente reservado e honesto. No segundo, como um corrupto e ambicioso chefão do petróleo. Seja como for, gosto do modo como ele carrega nas cores sem sair do discreto. Ainda assisto Adaptação, filme que rendeu ao Cooper o Oscar de melhor ator coadjuvante. Até lá, algumas indagações:




Afinal de contas, Capote se apaixonou ou não pelo assassino Perry Smith?


Por que o nome do filme se chama Syriana?

E, por fim, qual a visão no filme a respeito dos árabes e dos persas? São pessoas que querem voltar para o século VIII ou gente normal que sofre as conseqüências nefastas da indústria do petróleo? O filme realmente queria passar uma mensagem de alerta?